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Fui pescar

Posted by pazu, Sun Dec 09 13:29:00 UTC 2007

本日は休ませていただきます。

Dois verbos. Nenhum sujeito, nenhum objeto, nenhum agente, nada. 本日 nos diz que estes dois verbos incríveis acontecem hoje, e só. Apesar disso, a frase é completa e objetiva. Como o grande mestre Zen Dōgen teria traduzido, “Fui pescar”.

É isso?! Bom, não ao pé da letra, mas na sua cultura, é tão cliché quanto “Fui pescar” e “Fechado” são na nossa. Os detalhes podem ser bem mais divertidos, no entanto, se olharmos mais de perto.

O último verbo da frase é いただきます, e nos diz que um sujeito não explicitado vai humildemente receber algo de alguém mais importante. O que o sujeito vai humildemente receber é o fato da pessoa mais importante realizar a parte causativa do verbo na forma て que precede いただきます.

Então, qual é a desse 休ませて que a pessoa mais importante vai fazer? 休む é o verbo “descansar”, e está na forma causativa 「使役形」, significando que a pessoa importante vai fazer outro alguém descansar, ou seja, ele vai deixar nosso humilde receptor descansar.

Se voltarmos para o verbo final e chamarmos o sujeito desconhecido de X e a outra pessoa importante de Y, o resultado é algo parecido com ”X vai humildemente receber a permissão de Y para descansar”.

Mas afinal, quem são X e Y? Como uma placa assim, sem texto mais nenhum, significar alguma coisa para alguém? Aqui, o contexto vem do mundo real. A placa está pendurada na porta de uma loja, e o aspirante a cliente encontra o local fechado, com a placa dizendo a ele que “(Nós, os donos da loja) humildemente recebemos (de você, honorável cliente, sua) permissão para descansarmos hoje”.

Isso tudo escrito numa linguagem incrivelmente refinada, mas o que importa é que o dono da loja está dizendo ao cliente que, não importa o que o cliente ache disso, ele vai fechar a loja por hoje. いただく é realizado pelo sujeito, segundo sua própria vontade, e carrega a mensagem de que “eu tomo para mim, em completa humildade, receber de você…”. É parecido com aquelas placas de “Obrigado por não fumar”, que sempre me impressionam por ter um sarcasmo escondido, que as torna mais intimidadoras que um simples “Proibido fumar”.

Uma tradução perfeitamente natural da placa poderia ser simplesmente “Fechado”, mas então perderíamos todas as diferenças culturais interessantes. Talvez algo como “Agradecemos por permitir que tiremos o dia de folga” ou “Apreciamos a sua permissão para que descansemos” passe mais uma noção do tom respeitoso do original, num português mais natural. Mas não se engane: o dono foi pescar.

– Jay Rubin,“Making Sense of Japanese” (Kodansha International, 1998), p.61-62

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